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Música e corrida: ouvir suas músicas favoritas realmente melhora o desempenho?

Música e corrida

Uma combinação que vai além da motivação

Se você corre ouvindo música, provavelmente já sentiu que determinados sons fazem os quilômetros passarem mais rápido. Mas será que isso é apenas uma sensação ou existe uma explicação científica?

Nos últimos anos, pesquisadores têm investigado como a música afeta o desempenho esportivo, especialmente em atividades aeróbicas como a corrida. Os resultados mostram que a escolha das músicas pode influenciar não apenas a motivação, mas também parâmetros fisiológicos, biomecânicos e perceptivos relacionados ao desempenho (Terry et al., 2020).

Neste artigo, vamos explorar o que a ciência sabe sobre a relação entre música e corrida e como você pode usar esse recurso de forma estratégica nos seus treinos.

A música pode melhorar o desempenho na corrida?

Um estudo publicado na revista Sports (Jebabli et al., 2020) avaliou 20 homens, com idade média de 22 ± 1,3 anos, durante um teste de corrida de 6 minutos em duas condições: ouvindo músicas de sua preferência e sem música. Os pesquisadores observaram que a música preferida aumentou em aproximadamente 10% a distância percorrida, além de promover maior velocidade média durante o teste, sem aumento significativo da percepção subjetiva de esforço.

Curiosamente, os corredores não relataram aumento significativo da percepção de esforço, mesmo correndo mais rápido. Isso sugere que a música pode ajudar a desviar parte da atenção das sensações desagradáveis associadas ao exercício intenso, tornando o esforço percebido mais tolerável.

Como a música reduz a sensação de esforço?

Durante a corrida, nosso cérebro recebe continuamente sinais relacionados à fadiga muscular, frequência cardíaca, respiração e desconforto físico.

A música atua como um estímulo externo capaz de competir pela atenção do corredor. Esse fenômeno é conhecido como dissociação atencional, em que parte do foco deixa de estar nas sensações corporais e passa para os estímulos musicais.

Segundo a literatura científica (Hutchinson et al., 2013; Jones et al., 2014), esse efeito tende a ser mais evidente em exercícios de intensidade leve a moderada. Conforme a intensidade aumenta, os sinais internos do corpo, como respiração, fadiga muscular e desconforto, passam a ocupar mais a atenção do corredor, reduzindo parcialmente a influência da música.

Além disso, músicas consideradas motivacionais podem melhorar o humor, aumentar a sensação de energia e favorecer a manutenção do ritmo durante o exercício.

Música preferida é melhor do que qualquer playlist?

Estudos sobre música e exercício mostram que a preferência musical é um fator importante.

Pesquisadores da UNICAMP investigaram os efeitos da música preferida durante um teste incremental de corrida em homens e mulheres fisicamente ativos (Rasteiro et al., 2020). O estudo não encontrou alteração significativa na determinação do limiar anaeróbio, mas mostrou que a música preferida pode modificar algumas respostas fisiológicas e perceptivas ao longo do exercício.

Esses achados reforçam que a preferência musical é um componente importante. Canções escolhidas pelo próprio corredor tendem a ter maior significado emocional, podendo melhorar o estado de ânimo, aumentar a motivação e facilitar o engajamento durante o esforço.

Portanto, não existe uma playlist universal perfeita para correr. A melhor música é aquela que funciona para você.

O ritmo da música pode alterar sua cadência?

Um estudo conduzido por Van Dyck e colaboradores (2015) demonstrou que pequenas alterações no tempo musical, medido em batimentos por minuto (BPM), podem provocar mudanças espontâneas na cadência de corrida. Os participantes ajustaram parcialmente seus passos ao ritmo da música mesmo sem receber instruções explícitas para isso.

Os pesquisadores sugerem que o tempo musical pode ser utilizado como uma ferramenta para influenciar a frequência de passadas.

Esse achado possui implicações interessantes para o treinamento e para a prevenção de lesões. Estudos biomecânicos mostram que pequenos aumentos na cadência podem reduzir cargas sobre joelho e quadril, o que pode ser útil em programas de reabilitação e de ajuste técnico (Heiderscheit et al., 2011).

Em outras palavras, a música pode funcionar como um “metrônomo natural” para auxiliar ajustes sutis na mecânica da corrida.

Qual o melhor BPM para correr?

Não existe um BPM ideal para todos os corredores. Ainda assim, algumas faixas podem servir como referência prática para experimentar nos treinos.

No estudo de Jebabli e colaboradores (2020), as músicas escolhidas pelos participantes estavam na faixa de 120 a 140 BPM. Nessa condição, os corredores percorreram maior distância e apresentaram velocidade média mais alta durante o teste de 6 minutos.

Por outro lado, pesquisas sobre sincronização entre música e movimento mostram que o BPM pode influenciar a cadência da corrida, especialmente quando o ritmo musical está próximo da frequência natural de passadas do corredor ou quando há intenção de sincronizar os passos à música.

Como referência prática, você pode experimentar:

  • Corridas leves: 120 a 140 BPM
  • Corridas moderadas: 140 a 160 BPM
  • Treinos de ritmo e intervalados: 160 a 180 BPM

Esses valores servem apenas como ponto de partida. A resposta individual costuma ser mais importante do que qualquer número específico: alguns corredores se adaptam melhor a músicas próximas da própria cadência, enquanto outros usam o ritmo mais como estímulo motivacional do que como metrônomo.

Música e corrida | Corra Lebre

Quando a música pode não ajudar?

Apesar dos benefícios, a música não melhora o desempenho em todas as situações.

Em exercícios próximos do esforço máximo, os sinais fisiológicos passam a ter maior relevância para o cérebro. Nesses momentos, a influência da música tende a diminuir.

Além disso, corredores que treinam exclusivamente com fones podem desenvolver menor percepção do ambiente externo, o que exige atenção extra em locais com tráfego ou grande circulação de pessoas.

Para provas oficiais, vale lembrar que algumas competições restringem ou proíbem o uso de dispositivos de áudio.

Como usar a música de forma estratégica nos treinos?

Se você deseja aproveitar os benefícios da música durante a corrida, algumas recomendações práticas são:

  1. Escolha músicas que realmente sejam motivadoras para você.
  2. Organize playlists diferentes para cada tipo de treino.
  3. Utilize músicas com BPM semelhante à sua cadência natural.
  4. Reserve alguns treinos sem música para desenvolver percepção corporal e controle de ritmo.
  5. Use a música como ferramenta complementar, e não como substituta do treinamento adequado.

Conclusão

A música pode ser uma ferramenta simples e poderosa para tornar a corrida mais prazerosa. Em algumas situações, ela pode ajudar a reduzir a percepção de esforço, melhorar a motivação e até favorecer ajustes sutis na cadência.

Mas a resposta não é igual para todos. O efeito depende da música escolhida, da intensidade do treino, da experiência do corredor e da forma como cada pessoa se conecta com o ritmo.

Por isso, mais do que buscar a “playlist perfeita”, vale usar a música de forma estratégica: experimente diferentes BPMs, observe sua percepção de esforço e entenda como seu corpo responde na prática.

No Protocolo Lebre, analisamos como o seu corpo se comporta durante a corrida, considerando parâmetros como impacto, estabilidade e assimetrias. A partir desses dados, fica mais fácil entender se mudanças no tênis, no ritmo, na técnica ou na condução do treino estão realmente favorecendo uma corrida mais eficiente e confortável.

Na próxima vez que você montar sua playlist, lembre-se: suas músicas favoritas podem estar contribuindo mais para o seu desempenho do que você imagina.

E se quiser entender melhor como seu corpo responde durante a corrida, a Corra Lebre pode ajudar você a correr com mais conforto, eficiência e segurança.

Quem sabe, depois da análise, ainda ajudamos a montar a trilha sonora ideal para o próximo treino?

Referências

Heiderscheit BC, Chumanov ES, Michalski MP, Wille CM, Ryan MB. Effects of step rate manipulation on joint mechanics during running. Med Sci Sports Exerc. 2011 Feb;43(2):296-302.

Hutchinson JC, Karageorghis CI. Moderating influence of dominant attentional style and exercise intensity on responses to asynchronous music. J Sport Exerc Psychol. 2013 Dec;35(6):625-43.

Jebabli N, Granacher U, Selmi MA, et al. Listening to preferred music improved running performance without changing the pacing pattern during a 6 minute run test with young male adults. Sports (Basel). 2020 May 11;8(5):61.

Jones L, Karageorghis CI, Ekkekakis P. Can high-intensity exercise be more pleasant?: attentional dissociation using music and video. J Sport Exerc Psychol. 2014 Oct;36(5):528-41.

Rasteiro FM, Messias LHD, Scariot PPM, et al. Effects of preferred music on physiological responses, perceived exertion, and anaerobic threshold determination in an incremental running test on both sexes. PLoS One. 2020 Aug 12;15(8):e0237310.

Terry PC, Karageorghis CI, Curran ML, Martin OV, Parsons-Smith RL. Effects of music in exercise and sport: A meta-analytic review. Psychol Bull. 2020 Feb;146(2):91-117.

Van Dyck E, Moens B, Buhmann J, et al. Spontaneous entrainment of running cadence to music tempo. Sports Med Open. 2015;1(1):15.

Van Dyck E, Buhmann J, Lorenzoni V. Instructed versus spontaneous entrainment of running cadence to music tempo. Ann N Y Acad Sci. 2021 Apr;1489(1):91-102.

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