Conforto importa, mas não é tudo para escolher um tênis
A escolha do tênis de corrida geralmente começa pela sensação imediata nos pés. Embora um modelo possa apresentar características técnicas avançadas, dificilmente será a melhor opção se não for confortável. Nesse sentido, o conforto funciona como um filtro inicial importante, porém não suficiente para garantir que o tênis seja o mais eficiente, seguro ou adequado ao corredor.
Na Corra Lebre, utilizamos uma avaliação de percepção de conforto com base científica, originalmente desenvolvida por pesquisadores da USP, liderados pela Profa. Isabel Sacco (Dinato et al., 2015). Esse instrumento deriva diretamente da metodologia proposta por Mündermann et al. (2002), referência na avaliação subjetiva de conforto em tênis de corrida. Nosso formulário inclui variáveis-chave como: comprimento, largura do antepé, rigidez e borda do contraforte, maciez do solado no calcanhar e antepé, conforto no arco plantar, controle médio-lateral, adaptação ao perímetro do pé, grip do solado e conforto geral.
O que a ciência diz sobre conforto em tênis de corrida?
A literatura científica demonstra que a percepção do conforto pode ser mensurada de forma confiável quando se utiliza uma escala analógica visual associada a instruções padronizadas.
O trabalho de Mündermann et al. (2002) foi decisivo ao mostrar que corredores são capazes de identificar com precisão mudanças sutis entre diferentes calçados, como variações na rigidez, amortecimento e estabilidade do contraforte. Assim, o conforto deixou de ser um elemento puramente subjetivo para se tornar um componente mensurável dentro da ciência do tênis de corrida.
Contudo, estudos posteriores adicionaram pontos importantes. O estudo de Dinato et al. (2015) comparou a percepção de conforto com variáveis biomecânicas objetivas: pressões plantares e forças de reação do solo, e demonstrou ausência de correlação entre sensação de conforto e impacto real recebido pelo corpo.
Em outras palavras:
- Um tênis confortável não necessariamente reduz as cargas mecânicas durante a corrida;
- Um modelo de tênis “biomecanicamente” eficiente pode não ser percebido como o mais agradável no primeiro contato.
Esses achados reforçam que o conforto é relevante, mas não deve ser interpretado como indicador direto de eficiência biomecânica, performance ou proteção contra lesões.
Como o Protocolo Lebre pode ajudar na escolha do tênis de corrida
Para ir além da percepção, a Corra Lebre desenvolveu o Protocolo Lebre, que integra objetivos do corredor, avaliação subjetiva e análise biomecânica individualizada.
Utilizamos um sensor inercial posicionado na região lombar, conectado a um software com tecnologia criada a partir de mais de dez anos de pesquisas da KU Leuven e da Stellenbosch University.
Essa integração permite identificar de maneira precisa como cada modelo de tênis influencia parâmetros biomecânicos relevantes:
- Impacto aplicado ao sistema musculoesquelético;
- Estabilidade dinâmica do tronco e da pelve;
- Simetria entre os membros inferiores.
O resultado é uma recomendação baseada tanto no que o corredor sente quanto no que o corpo realmente faz durante a corrida.
Enquanto o conforto revela a experiência subjetiva, a biomecânica revela a realidade objetiva.
O Protocolo Lebre combina essas duas dimensões para oferecer escolhas mais seguras, eficientes e personalizadas, alinhadas à ciência e performance do corredor.
Pesquisa da Corra Lebre com corredores amadores
Entre julho e novembro de 2025, foi realizada uma pesquisa observacional, exploratória e descritiva com 80 corredores (51 homens e 29 mulheres), utilizando o instrumento desenvolvido pelos pesquisadores do Laboratório de Biomecânica do Movimento e Postura Humana da USP, baseado em escala do tipo Likert, com o objetivo de avaliar a percepção de conforto geral dos principais modelos disponíveis na Corra Lebre. No total, foram realizados 230 testes entre os 80 corredores.
Esse instrumento contém questões sobre as características do tênis, tais como: comprimento, largura do antepé e do contraforte, solado do calcanhar e do antepé, borda superior do contraforte, conforto abaixo do arco e na região médio-lateral, adaptação ao perímetro do pé, grip do solado e conforto geral.
Inicialmente, cada corredor selecionou dois a três modelos (Tabela 1), com base em sua preferência pessoal, nos objetivos relacionados à corrida e na orientação especializada da equipe técnica da Corra Lebre. Em seguida, os modelos foram testados nos pés de cada participante e as questões do instrumento foram respondidas antes da realização da análise biomecânica pelo Protocolo Lebre.
Tabela 1. Marcas de tênis de corrida e número de corredores avaliados por meio do questionário de Percepção de Conforto do Protocolo Lebre
| Marca do tênis | Número de corredores |
| ADIDAS | 10 |
| ASICS | 72 |
| BROOKS | 24 |
| HOKA | 36 |
| NEW BALANCE | 51 |
| PUMA | 37 |
Os resultados iniciais associados com a questão de conforto geral estão apresentados a seguir (Figura 1).

Figura 1. Distribuição das pontuações médias da Percepção de Conforto Geral dos modelos de tênis testados por corredores amadores atendidos na Corra Lebre
O que os resultados mostraram sobre a Percepção de Conforto Geral entre as marcas
Os resultados de Percepção de Conforto Geral devem ser interpretados por meio de características construtivas dos tênis, especialmente no que se refere à entressola e ao cabedal. Tais associações não implicam causalidade direta, mas podem indicar padrões compatíveis entre materiais, construção e percepção subjetiva dos corredores.
Na amostra analisada, os modelos das marcas ASICS e NEW BALANCE apresentaram menor variabilidade interindividual na Percepção de Conforto Geral (Figura 1). Esse achado não deve ser interpretado como superioridade absoluta das marcas, mas como uma tendência observada dentro do grupo de corredores avaliados.
Esse padrão pode estar associado com a combinação de entressolas com resposta mecânica mais previsível e cabedais com ajuste consistente, capazes de acomodar diferentes formatos de pé.
No caso da ASICS, a utilização de diferentes composições e combinações de entressola, abrangendo tecnologias de espumas como FF Blast™ PLUS ECO (EVA com OBC), FF Blast™ MAX (POE) e FF TURBO PLUS (PEBA), parece permitir modular amortecimento e retorno de energia. Associado a isso, o uso predominante de Jacquard Mesh e Engineered Mesh no cabedal de modelos como Nimbus 27, Novablast 5, Superblast 2 e Sonicblast, parece favorecer um controle eficaz do médio-pé, o que pode influenciar na percepção de conforto entre corredores.
A NEW BALANCE apresentou comportamento semelhante, possivelmente em função de plataformas como FuelCell, formulada a partir de misturas de EVA com PEBA ou composta integralmente por PEBA, e Fresh Foam X, baseada em uma formulação otimizada de EVA, combinadas com cabedal em Engineered Mesh e Jacquard Mesh multicamadas, destacando-se o uso de triple-layer Jacquard Mesh no modelo 1080 v14, além de construções mais suaves em modelos como o SC Trainer v3.
Na sequência, aparecem os modelos da PUMA, que empregam a tecnologia NITROFOAM™, uma mistura de TPEE e PEBA com infusão de nitrogênio. A PUMA apresenta maior diversidade construtiva, combinando o Engineered Mesh (MagMax Nitro), malhas em knit (ForeverRun Nitro 2 e Deviate Nitro 3), monomesh (Deviate Nitro Elite 3) e estruturas de dupla camada em Engineered Mesh (Velocity 4). É possível que o uso de entressolas altamente responsivas, como a NITROFOAM™, e a diversidade construtiva do cabedal, possa estar associado a maior variabilidade interindividual na avaliação global de conforto.
Em seguida, observamos um empate entre BROOKS e HOKA.
A BROOKS emprega o DNA TUNED, um EVA com infusão de nitrogênio e células estruturadas e cabedal principalmente Engineered Mesh e malhas de dupla camada, como nos modelos Glycerin Max, Glycerin 22 e Glycerin 22 GTS. Relatos de ajuste menos preciso em alguns modelos sugerem que diferenças no volume e largura do pé podem influenciar a percepção de conforto.
A HOKA, por sua vez, fundamenta seus modelos em EVA supercrítico ou EVA moldado por compressão, podendo também incorporar PEBA, alternando o cabedal entre entre Jacquard Mesh, malhas ultraleves e construções em knit, como observado nos modelos Skyflow, Clifton 10, Mach 6, Mach X2 e Skyward X. Modelos com bases amplas, como muitos da HOKA, podem alterar a percepção de conforto, especialmente em corredores menos adaptados a construções maximalistas.
Por fim, os modelos da ADIDAS, que utilizam Lightstrike (EVA otimizado) e Lightstrike Pro (A-TPU), apresentaram posicionamento inferior no ranking de percepção geral de conforto, resultado que deve ser interpretado com cautela devido ao tamanho reduzido da amostra (n= 10).
Esses resultados sugerem que tênis com resposta mecânica mais previsível e ajuste consistente tendem a gerar percepções de conforto mais uniformes. Em contrapartida, construções mais responsivas com estruturas rígidas parecem aumentar a sensibilidade da percepção de conforto às características individuais do corredor, resultando em maior variabilidade nas avaliações.
Esses achados reforçam que a percepção de conforto não deve ser interpretada como associação às tecnologias do tênis, mas como o resultado de uma interação complexa entre materiais, construção e corredor. As tendências observadas representam leituras iniciais, sendo necessárias análises futuras, com amostras ampliadas e integração de variáveis biomecânicas objetivas.
Conforto e desempenho caminham juntos?
A Corra Lebre está estruturando uma nova linha de pesquisa para investigar a relação entre variáveis biomecânicas como impacto, estabilidade dinâmica e assimetrias, com o conforto relatado pelos corredores.
Esse cruzamento de dados pode revelar padrões importantes, tanto para orientar recomendações personalizadas quanto para aprofundar a compreensão sobre a interação entre sensação e mecânica do movimento para escolha do tênis de corrida.

Fique atento aos próximos resultados que serão divulgados aqui no blog!
Referências científicas
Colaboração: Lucas Molina


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